sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Como o raiar da aurora

 



Eis que como o raiar da aurora,

o Senhor se faz presente em cada Natal,

num presépio, sinal humilde e forte,

iluminador da vida e vencedor da morte.

 

Eis Jesus, o menino Deus

sinal frágil do Omnipotente

em cujos braços abertos de amor

age o dedo de Deus criador.

 

Eis Cristo a nascer no meio de nós

e cruzar os nossos caminhos, Ele vai,

a ensinar-nos a viver na justiça do perdão

para podermos tratar o Seu por Nosso Pai.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Eutanásia - A má morte

São Miguel, Catedral de Granada. O anjo do juízo de Deus. 

A aprovação da eutanásia hoje no parlamento português (29-01-2021) traz ao de cima o jogo político. Se na anterior legislatura se chumba porque não há maioria, hoje faz-se a aprovação porque há maioria para isso. Como tal, tudo se reduz a uma questão de maiorias e assim. Aliás, se quisessemos levar a sério a dimensão de representatividade dos deputados, poderíamos concluir que a opinião da maioria dos portugueses mudou diametralmente em 3 anos. São realidades como estas que mostram, que mais do que a representação dos deputados, existem forças que impõem ideologias sempre que podem. Mas diz uma cantiga recente: "a maioria não está sempre certa".

Esta lei traduzir-se-á no provocar da morte a quem se encontre em sofrimento dito insuperável, a pedido do próprio. Reparemos que não é deixar que a morte aconteça, evitando a obstinação terapêutica, mas com um pedido voluntário do próprio ao médico, com mais ou menos etapas este provoca a morte. Esperemos que não deslizemos, como já aconteceu noutros países, para situações em que os médicos "adivinham" o pedido da pessoa, "que nesta situação já só poderia querer a eutanásia", nem fomentemos - e isto irá acontecer - a pressão que sujeita os menos capazes e que pesam à família para alegar um sofrimento psíquico grande para terminar com a própria vida. As leis configuram a sociedade e esta lei acentua a vida humana na lógica da utilidade. Como se sentirá um idoso abandonado pela família, como ouvíamos ainda recentemente? 

Com efeito, a eutanásia torna a vida numa lógica de utilidade, quando ela de facto é um dom. Tal como ninguém pede para existir, a ninguém é lícito pedir para morrer. Que direito tem um Estado que aceita a morte a pedido de uma pessoa de impôr hábitos de vida saudável?!

Por outro lado, que legitimidade tem um Estado que não tem os meios para suportar todos os seus cidadãos em sofrimento insuportável, aprovar uma legislação que permita pôr fim à vida de quem está em sofrimento? 

É certo que a eutanásia é antes de mais uma questão civilizacional do que uma questão religiosa. Como tal os argumentos que temos de apresentar são do foro racional e tentar evidenciar a sua contradição interna. Mas neste processo, existe um dado que salta à vista, que é o facto desta proposta de lei ser encabeçada por quem se diz católico. 

É dado básico da teologia que fé pressupõe a razão e a fé alarga a razão. De facto, Cristo coloca a fé como uma forma de conhecimento de Deus (cf. Jo 17, 3), o mesmo Cristo que revela que não vem revogar o Lei, mas aperfeiçoa-la (Mt 5, 17). E na Lei de Deus, e no Evangelho de Cristo a vida só a Deus pertence; aliás, o cristão é aquele que sabe que a sua vida não vem de si, mas como Cristo, vive para ser amado por Deus e cumprir a Sua vontade (Jo 4, 34). 

Na própria bíblia existem relatos em que o próprio crente, diante do sofrimento, chega a deseja a morte, como é o caso de Job. Mas é também claro, que não descurando os dramas humanos, o homem crente acaba por reconhecer que a sua vida vem de Deus e para Ele volta.  

Como tal, se na razão facilmente podemos esgrimir argumentos de pós e contra a eutanásia, na fé católica não há dúvidas de que a vida é um dom de Deus, que não pertence à pessoa decidir pôr um fim à sua vida. É por isso aliás, que no último documento da Congregação para a Doutrina da Fé, Samaritanus Bonus, aprovado pelo Papa Francisco, no número 11, se recusa o acesso aos sacramentos, especificamente da Penitência e da Unção dos Enfermos, para quem ser eutanasiado. Não porque a Igreja decida castigar a pessoa, mas é a própria que exclui Deus da sua vida com a sua decisão, na qual o Deus de Jesus Cristo não é o seu deus. Isto não iliba, contudo a Igreja, de sempre se fazer próxima com os meios da misericórdia e de propor a alegria da conversão, como o próprio documento refere. 

Não haja dúvidas. Se pela razão se pode considerar a objectividade da vida como discutível, na fé a rejeição da eutanásia é clara. É por isso, que temos de dar suporte racional ao que Deus revela pelas Sagradas Escrituras. Dito isto, como pode alguém que se diz católico ser promotor de uma lei como a eutanásia que contradiz a fé?!  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Habitua-nos



Vem salvador do homem
Vem habitar connosco
E habitua-nos a estar contigo!

Vem Menino de Deus
Vem brincar connosco
E reacende em nós a alegria

Vem olhar eTerno
Vem ser luz para nós 
E recria-nos no cuidado de ti

Vem Palavra de Deus
Vem semear a paz
E desarma as nossas mãos
Para te alcançarem nos irmãos. 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Um olhar global para a Encíclica Fratelli Tutti: Uma visão política e social inspirada em valores cristãos

 


 O Papa Francisco lançou no passado dia 3 de Outubro a encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e amizade social. É um texto em que o Papa continua a reflexão social da Laudato Si, desta vez colocando o enfoque sobre a construção da paz entre a humanidade, cuidados e realidades a ter em conta neste processo. Considerando que a primeira Encíclica - Lumen Fidei - nasce do trabalho do seu antecessor Bento XVI, percebemos como Francisco insiste nos temas da doutrina social. 

Não se trata de um texto dogmático, ou de desenvolvimento teológico, salientando-se a figura do Bom Samaritano como modelo para convidar e interpelar a humanidade a sair de si. É um texto que tem raízes no diálogo inter-religioso com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, nomeadamente no documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum, assinado em Abu Dhabi a 4 de fevereiro de 2019.

Fazendo o diagnóstico da sociedade, Francisco identifica as exclusões sociais, a falta de consciência histórica, os perigos da globalização, a falta de sabedoria num mundo de informação como dramas do nosso tempo.

A maior parte do texto é sobretudo de carácter político e social, na medida em que reflecte sobre a forma de organização do poder e da sociedade para combater a exclusão lembrando a pertença à mesma humanidade, à mesma família humana. É neste horizonte que coloca a fraternidade universal, inspirando-se em S. Francisco de Assis. O Papa coloca a necessidade do acolhimento do estrangeiro, alerta ao ressurgimento de realidades que oprimem aquele que é diferente, denuncia a tendência actual para homogeneizar a cultura. Se é verdade que o conflito é realidade que acompanha a natureza humana (cf. nn. 237-240), a família humana é convidada a descobrir a unidade que o amor promove. Por isso o Papa apela a toda a humanidade ao acolhimento do outro por si, naquilo que cada um é, dando-lhe espaço para a sua liberdade e evitando que a humanidade caminhe para um uniformismo. A imagem que o Papa usa para sonhar a sociedade é a do poliedro, que já tinha surgido na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho (n. 215), colocada assim como paradigma para criar uma sociedade heterogénea mas sem excluídos.  

O Papa sublinha que toda a transformação da sociedade é realidade que começa no coração de cada um, o qual é marcado pela fragilidade que leva ao egoísmo, e que com a ajuda de Deus é possível ser "dominada" (n. 166). Como já referi no início, o texto não trata em profundidade categorias teológicas, pelo que, por exemplo, não encontramos qualquer referência a termos como "salvação" ou "redenção" ou "Santíssima Trindade". 

Atravessado pela marca do diálogo inter-religioso, assinala-se que as religiões têm todas um contributo para dar à humanidade, pela sua abertura ao transcendente, e que «sem uma abertura ao Pai de todos, não podem haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade.» (n. 272). 

É um texto marcado pelo estilo de Francisco, e por isso bastante distinto dos seus antecessores, cujas encíclicas sobre a doutrina social tinham uma maior pendor  teológico - João Paulo II, na Sollicitudo Rei Socialis e Bento XVI, na Caritas in Veritate; nesta encíclica, a reflexão é feita predominantemente a partir da categroria humana, mesmo na leitura da figura do "bom samaritano" e como tal não se coloca tanto num texto de leitura para "inteligência da fé", mas para um diálogo aberto com a sociedade. Creio que também terá sido por esta metodologia que o texto foi recebido com desagrado nalguns ambientes eclesiais como um texto próximo da maçonaria. Todavia, penso ser um texto que nos exorta a ter consciência do pluralidade do nosso mundo, e creio que nos chama a viver a fé no respeito pelos demais, sem que com isso nos dispense de testemunhar e anunciar o Evangelho. A tentação de neste texto ver apenas um humanismo seria redutor da Tradição da Igreja; bem sabemos que em nome de humanismo se cometeram e cometem algumas das maiores atrocidades da história da humanidade. 


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Sobre Job

 

À vida que desaba
não te deixes esmorecer;
o caminho que trilhamos 
não termina ao morrer.

São passos pesados de dar,
Mas o caminho é feito devagar;
e mesmo na maior solidão
Deus guia-nos na missão

A fidelidade é caminho estreito
Onde a felicidade cresce devagar;
mas onde a confiança é o alicerce 
da entrega que sequer renovar.


sábado, 1 de outubro de 2016

Domingo XXVII Ano C

A liturgia deste Domingo XXVII faz-nos mergulhar na raiz da vida cristã, perguntando-nos pela nossa semente de fé. A fé é um dom que todos recebemos; é o que nos faz ser o que somos e quem acreditamos ser; por isso, nasce da revelação dos outros, do que recebemos e escolhemos receber, do que valorizamos como importante. A fé faz mesmo perceber o que é essencial no meio das limitações da nossa vida. Fica o eco do profeta Habacuc: «Vede como sucumbe aquele que não tem alma recta; mas o justo viverá pela sua fidelidade» (Hab 2, 4). 

A fé, que é necessariamente provada nos cadinhos da vida, gera a fidelidade. Fidelidade aberta ao Outro e não apenas às próprias ideias, porque a vida vive do dom. Gera o reconhecimento do perdão das limitações de cada um e abre ao perdão. Alarga as fronteiras da visão e do coração para conseguir ver mais longe. De facto, o amor constroi-se da convicção de que vida é em relação. Logo, a fé é necessária ao amor. E o amor só se sustenta na fidelidade; logo a fé e a fidelidade não se podem separar.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os nossos Pais na Igreja

                         

A personalidade de cada um é moldada em grande parte pela vivência dos primeiros anos de vida, sobretudo pelas relações que se estabelecem com os pais. Esta situação é tão evidente que todos somos filhos de alguém e muitas vezes nos apresentamos como filhos. Assim reconhecemos automaticamente que não somos a causa de nós mesmos, mas portadores da vida, sendo para sempre filhos de alguém.

A missão da educação dos nossos filhos significa levá-los ao desenvolvimento de si mesmos. É para isso que os pais muitas vezes se esforçam, corrigem e encorajam os filhos. «Ouve meu filho, as instruções de teu pai» (Prov 1, 8) e ainda «interroga o teu pai e ele te ensinará» (Dt 32, 7) são duas pequenas frases bíblicas que nos fazem reconhecer o lugar que os nossos pais têm na educação dos filhos. Nesta tarefa é essencial apontar aos filhos que Deus continua próximo e presente no meio do seu povo e que jamais nos esquece. Quem assim se descobre amado por Deus, encontra a felicidade e o sentido da sua vida, e que tem a sua pátria nos céus. Estas duas pequenas citações bíblicas dão conta desta consciência, na medida em que despertam a responsabilidade dos pais transmitirem a fé que receberam aos filhos. No mundo bíblico isto era feito sobretudo pela narração daquilo que Deus havia feito pelo seu povo ao longo dos séculos, recorrendo-se muitas vezes a fórmulas rítmicas e musicais, que ainda subsistem entre nós.

Ser filho é também a condição de Jesus Cristo, que se apresenta como o Filho de Deus, que vem revelar que Deus é Pai. De facto, diz um autor antigo que “Não nos foi mostrado que o Pai é Deus, mas Deus é Pai”. Nesta subtil distinção está o centro da nossa vida cristã: somos filhos de Deus e, em Jesus Cristo, podemos tratar a Deus por Pai.

Também a Igreja é marcada pela presença de pais. Os primeiros séculos da vida da Igreja ficaram gravados pelo testemunho e ensino dos apóstolos, que transmitiram a boa nova, ou seja, o Evangelho: Cristo morreu e ressuscitou para a salvação de todos. Este anúncio central da fé constitui o núcleo da missão da Igreja, que foi transmitido aos seguintes, num movimento que se chama de Tradição. A Tradição não diz respeito em primeiro ao modo antigo ou antiquado de fazer isto ou aquilo, mas o núcleo mais essencial da vida cristã: a fé.  

O ensino dos apóstolos foi recebido pelas comunidades, como se percebe pelos livros no Novo Testamento. Mas a vida da Igreja continua até aos nossos dias e perpetua-se na eternidade. Os primeiros séculos deste percurso histórico ficaram marcados por uma série de homens, que rezando, meditando, anunciando e administrando os sacramentos, elaboraram muito do que são as bases da fé como nós as acreditamos hoje. Se cada um de nós não existe sem um pai, também a Igreja não existiria como a temos hoje sem estes homens, que justamente foram apelidados de Padres da Igreja.


Este grupo está limitado geralmente entre os séculos I a V e deles fazem parte aqueles cujo testemunho de santidade, sabedoria e fidelidade ao ensino da fé foi reconhecido eclesialmente. Entre estes constam nomes como os de Santo Agostinho, Santo Ireneu, São João Crisóstomo, São Basílio, São Clemente de Alexandria, entre muitos outros. A abundância, a diversidade e a riqueza de fé e cultura dos seus escritos é muito ampla, sendo muitas vezes estudados por aqueles que não são cristãos. Descobri-los é um empenho grande e ajuda-nos a perceber a radicalidade da nossa fé cristã.

in Ecos da Ria, Março 2014. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

À alma na quaresma

Dá tempo neste tempo
Para te demorares na Presença
e mergulhares na radical fonte
donde brota a água pura.

A força do seu caudal
fará soltar as tuas areias
e amaciar as rugosidades do espírito
para não ferirem os pés do Visitante

Mas sabe que nem isso O detém
no desejo de te seduzir.
Vai com Ele sem demora
E deixa-te cortejar.

E em ti se fundaram os sentimentos
que anseias ver crescer
Em novo aposento entrarás
abraçada pelo Irmão dos homens.

João Ferreira 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Tribulação e prosperidade



São Gregório Magno, sobre o livro de Job (Sec. VI)

(...) Mas o que mais atentamente devemos considerar nas palavras de Job é o grande sentido de discernimento com que reage às imprecações da sua esposa, respondendo: «Se aceitámos os bens da mãos de Deus, porque não havemos de aceitar também os males?» É certamente um grande conforto no meio da tribulação recordarmos os benefícios recebidos do nosso Criador, quando caem sobre nós as adversidades; e não nos deixaremos desanimar pela dor, se imediatamente trazemos à memória a lembrança reconfortante dos dons divinos. Por isso, diz a Escritura «No dia da felicidade não te esqueças da desgraça, e no dia da desgraça não te esqueças da felicidade».

Com efeito, àquele que no tempo da prosperidade perde o temor das calamidades, o bem-estar leva-o à arrogância. Por seu lado, àquele que no tempo da adversidade não procura consolar-se com a recordação dos dons divinos, o seu estado de espírito pode abatê-lo até ao mais profundo desespero.

É necessário, portanto, associar os dois sentimentos, para que se completem mutuamente: a recordação do bem-estar mitiga o sofrimento na calamidade, e a previsão do temor da calamidade modera a alegria do bem-estar.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

São Efrém e o crescimento espiritual



Do Comentário de Santo Efrém, diácono, sobre o Diatéssaron
"A palavra de Deus é fonte inesgotável de vida"

Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza de uma só das vossas palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A palavra do Senhor apresenta aspectos muito diversos, segundo as diversas perspectivas dos que a estudam. O Senhor pintou a sua palavra com muitas cores, a fim de que cada um dos que a escutam possa descobrir nela o que mais lhe agrada. Escondeu na sua palavra muitos tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita.

A palavra de Deus é a árvore da vida, que de todos os lados oferece um fruto bendito, como a rocha que se abriu no deserto, jorrando de todos os lados uma bebida espiritual. Comeram, diz o Apóstolo, uma comida espiritual e beberam uma bebida espiritual.

Aquele que chegou a alcançar uma parte deste tesouro, não pense que nessa palavra está só o que encontrou, mas saiba que apenas viu alguma coisa de entre o muito que lá está. [...] O que não podes receber imediatamente por causa da tua fraqueza, poderás recebê-lo noutra altura, se perseverares. E não tentes avaramente tomar dum só fôlego o que não podes abarcar duma vez, nem desistas, por preguiça, do que podes ir conseguindo pouco a pouco.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Ponte de Paz


Ponte de paz

Vem Filho do Altíssimo,
Lançar a ponte da luz
Entre o reino de Teu Pai
E a mais funda raiz humana.

Vem príncipe da paz,
Despojar-nos das armaduras
E revestir-nos com as tuas vestes,
Fazer da nossa liberdade,
A ressonância do teu amor.

Vem médico divino,
Levantar-nos com as tuas mãos,
Beijar-nos com o teu olhar,
E rasgar-nos as mordaças
Que nos fazem calar a tua palavra.

Vem coração de Deus,
Inflamar-nos do teu desejo
Insuflar em nós os teus sonhos
E recriar em nós a tua vida.

Vem!



João Ferreira

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Porto

Hipérbole à parte, o senhor é capaz de ter razão:


«O Porto?! (...) O senhor já viu no mundo terra mais linda e gente mais séria? Devo confessar ter-lhe respondido que a respeito da beleza conhecia melhor. Mas, quanto à seriedade, concordei. E acrescento agora que só quem de todo quiser as evidências e apagar o facho de gerações e gerações, é que pode deixar de combater para que esta terra continue a ser o reduto das nossas velhas virtudes, das quais está certamente mais em risco de perder-se a que D. João de Castro sabia que se chamava honradez. (...) O indivíduo que põe num cabelo o valor de todo o corpo, é um ser completo. Da cabeça aos pés, passando pela alma, a sua unicidade não tem fendas, e joga como um bloco maciço. É uma força invencível. Ora se acontece que ele, em vez de se consubstanciar num simples cabelo da cara, polariza o que é na própria terra onde mora, então o perfeito torna-se exemplar, e surgem fenómenos como os do cidadão do Porto, o homem português mais livre, mais progressivo, mais responsável e mais capaz que a nossa pátria deu.»

Miguel Torga, Portugal, pp. 57-58.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tempo e eternidade

Tempo. Eternidade. Os mais antigos lembrar-se-ão do início da série do Star Trek, com os relatos do Capitão Kirk. 


A questão do tempo é para mim fascinante e é a prova de que estamos num permanente devir. O que agora é, já não é, mas ainda assim permanece algo do que é. Penso que S. Agostinho o dizia muito bem quando pensava o tempo passado como a memória, o futuro como a esperança, e o presente é o agora, onde tudo se decide. E em cada agora que o homem, vive estas três dimensões. Não posso deixar de pensar se será verdadeiramente real que o futuro seja visto por todos com esperança. A prática di-lo que não... Mas uma pessoa sem esperança é uma desanimada [des-animada=sem alma]. Sem esperança não há caminho que se comece. Nem meta que se chegue. 

Há uns anos um filme marcou-me - The Dead Poets' society = Clube dos poetas mortos. Quem o viu recordar-se-á dos chavões Oh Capitain, my Capitain e de Carpe Diem, Seize the day = aproveita o dia. Este é hoje o centro da minha reflexão, tema que venho pensando há algum tempo. Roberto Benigni afirma: "‎(...) sente che non vive per il carpe diem, per quelle cose, che è una cosa tristissima; no, vive un attimo eterno: per sempre!" O nosso tempo está informado pela eternidade - daquela que o S. Agostinho descreveu, numa unidade de passado, presente e futuro. Eternidade que necessariamente nos transcende. Karl Rahner dizia que desde que o eterno (Jesus Cristo) tinha entrado no efémero (nosso tempo), todo o nosso tempo estava em Deus. A nossa experiência já não é a de alcançar Deus, mas a de reconhecer que já estamos nesse mesmo espaço. Vivemos em cada dia um novo desafio, mas não vivemos apenas para o dia - vivemos com passos que pisam já a senda da eternidade. Vivemos na liberdade que é a capacidade de fazer algo verdadeiramente irrepetível. Vamos à vida!




Já agora vale bem a pena ver este video, que está em italiano.
http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=4VQ4xqL6mFU [1:42].

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Na vida, não existem soluções. Existem forças em marcha: é preciso criá-las e, então, a elas seguem-se as soluções." A. de Saint-Exupéry

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Na vida só há redo, não undo.

Undo, redo.
Dois mecanismos usados nos nossos trabalhos de todos os dias nos processadores de texto, folhas
de cálculo, apresentações...

Mas o que acontece se importamos a categoria virtual do undo para o nosso mundo real? A realidade torna-se virtual.
A plenitude de vida que desejamos passa a ficar limitada à virtualidade. Undo é a pretensão de podermos desfazer uma coisa sem deixar marcas.
A experiência mostra-nos que isso é impossível mesmo em transformações físicas: apenas o esticar de uma corda a enfraquece - todas as coisas que usamos no dia-a-dia têm período de validade. A física teórica aponta-nos que todas as transformações implicam um aumento de entropia do universo (3º Princípio da Termodinâmica).

Também a nossa vida deve ter esta consciência: nada do que fazemos pode ser desfeito. Apenas reparado. Se não temos bem consciência disto, cai-se numa alienação de viver na expectativa de poder sempre voltar atrás.

Na nossa vida só existe de facto - a nível da acção - do e redo. Do é dinamismo de um esforço, com sentido, que é começado, ao passo que redo é o dinamismo que permanece em tentativa de melhorar, aprofundar, superar, perseverar.

Que alicerce pode iniciar um esforço? Muitos serão. Entre eles estará o desejo de superação, a necessidade de procurar um sentido para a existência, a partilha do dom que cada um é, a concretização do amor por algo que supere a inércia que brota do desânimo, do se resignar à aparência do sem-sentido, de se deixar apenas ficar no undo, ou pior pensar que nele se pode ficar.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Do livro de KUNDERA, Lentidão, Edições Asa, p. 30:
"Imprimir forma numa duração, tal é a exigência da beleza, mas também da memória. Porque o que é informe é inapreensível, imemorizável"

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nos últimos tempos uma reflexão tem andado à minha volta.
Acho que uma das mais importantes aprendizagens ao homem é o uso do tempo. Cada vez mais me consciencializo que o nosso tempo é limitado. O tempo é-nos dado como um presente, mas pergunto-me se o usamos em jeito de o podermos crescer.
Há uma sabedoria ancestral que a bíblia tem e que o livro de Qohelet (3, 1-8) condensa como nenhum:

«Tudo tem o seu tempo determinado,
e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer;
tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar;
tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir;
tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras;
tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder;
tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser;
tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar;
tempo de guerra, e tempo de paz.»



Este é um texto em que a mudança é encarada como decurso normal da vida, sabendo que tudo tem o seu tempo. Então em que se fundamenta a resistência humana à mudança? Porque é que a ideia de mudança assusta e tanta literatura se escreve a esse propósito? Certamente que o medo é aqui factor importante. Mas qual é o dinamismo humano profundo a que se deve esta moção? Estou convencido que se trata, de facto, de uma sede de valores permanentes, de um horizonte em que o tempo já não leve à mudança, ou seja de uma plenitude, como um desejo impresso no espírito humano.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Não te peço apenas...

Não te peço apenas que veja,
mas que não me esqueça de que tenho olhos.

Não te peço apenas pés para caminhos trilhar,
mas que não me esqueça de que os posso movimentar.

Não te peço apenas as palavras para dizer,
mas que não me esqueça de que tenho boca para as pronunciar.

Não te peço apenas a força para agarrar,
mas que não me esqueça de que tenho as mãos trabalhar.

Não te peço apenas para crescer,
mas que não esqueça de que eu ja estou a ser.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Que as pedras se quebrem!

Que as pedras se quebrem

diante do Sopro suave

que do Alto cai em gotas de sangue

na dureza da superficialidade.


Que as pedras se fendam

e se colmatem do húmus

e nelas brote a vida

que nelas cai.


Que as pedras se abram

e as trevas se iluminem

na transparência revelante

da rugosidade crua e pura

da verdade carente assumida

na Verdade vivente e doada.

sábado, 23 de abril de 2011

Detiveram-se 'calados' os nossos passos

"Detiveram-se os nossos passos, às tuas portas Jerusalém..."

A atitude de estupefação diante de um evento surpreendente deixa geralmente o homem em atitude de abrandamento de ritmos, paragem contemplativa, ... diante de um Belo calam-se geralmente os ritmos acelerados, numa lentidão de passos para permitir que a percepção se sacie e se deixe revolver e extasiar no que a transcende.

Dizia Wittgenstein que sobre que "aquilo que não se pode falar, deve-se calar". O filósofo aqui tem quase razão - o que nos transcende é maior do que a nossa linguagem; de facto, quando falamos de algo que é maior do que nós, todas as nossas afirmações são heréticas - são heréticas por sempre truncarem parte de um dado maior nos limites da afirmação quer linguística, quer existencial. Sócrates, o grego, teve esta mesma consciência - por isso apelou à humildade como condição que para que o conhecimento possa crescer. Só quem se coloca na atitude de querer dominar o que o transcende é que pode pretender assim afirmar dono da Verdade.

Mas também como é que se nos dada a percepção do transcendente, nos temos depois de nos remeter a um silêncio castrante, e deixar a nossa existência hermética diante de um transcendente?! A tradição católica designa esta atitude de Temor de Deus. Então, não será que o surgimento do Belo diante da percepção limitada do homem não haverá de marcar a consciência do homem com a Esperança na reverância que o sustente na sua acção?!

Dostoievsky dizia que a Beleza salvará o mundo. Tem razão. A Beleza que não será apenas a dos altos muros erguidos, ou dos mais rebuscados pináculos góticos de uma titânica catedral, mas aquela que está presente no rosto de cada um. É na dignidade da pessoa que a beleza resplandece de mais nítida. Mas pode um rosto ferido e desfigurado "deter os passos" apressados?

Pode. Pode quando nos percebemos que Aquele, de quem somos à Imagem, está no lugar que nos pertenceria - o de termos que sofrer pelo mal que nos flanqueia e que nós também flanquemos.
Pode. Pode vemos que o sofrimento faz também parte da nossa existência, e que esse mesmo sofrimento se torna também redentor dos homens por serem oportunidade abertas a perceber a contingência pessoal, que é atenuada no rosto de outro contingente.
Pode. Pode quando percebemos que o rosto mal-tratado se tornou vivo, numa abundância de vida que surpreende e que se tornou presente em cada um. Mas esse outro já não é contingente, mas sim Absoluto, e que o lugar que ocupa afinal existia em nós, ainda que nós não o sabessemos e não sabermos. Mas sabemos que ocupa. E por isso ficamos calados.