sábado, 1 de outubro de 2016

Domingo XXVII Ano C

A liturgia deste Domingo XXVII faz-nos mergulhar na raiz da vida cristã, perguntando-nos pela nossa semente de fé. A fé é um dom que todos recebemos; é o que nos faz ser o que somos e quem acreditamos ser; por isso, nasce da revelação dos outros, do que recebemos e escolhemos receber, do que valorizamos como importante. A fé faz mesmo perceber o que é essencial no meio das limitações da nossa vida. Fica o eco do profeta Habacuc: «Vede como sucumbe aquele que não tem alma recta; mas o justo viverá pela sua fidelidade» (Hab 2, 4). 

A fé, que é necessariamente provada nos cadinhos da vida, gera a fidelidade. Fidelidade aberta ao Outro e não apenas às próprias ideias, porque a vida vive do dom. Gera o reconhecimento do perdão das limitações de cada um e abre ao perdão. Alarga as fronteiras da visão e do coração para conseguir ver mais longe. De facto, o amor constroi-se da convicção de que vida é em relação. Logo, a fé é necessária ao amor. E o amor só se sustenta na fidelidade; logo a fé e a fidelidade não se podem separar.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os nossos Pais na Igreja

                         

A personalidade de cada um é moldada em grande parte pela vivência dos primeiros anos de vida, sobretudo pelas relações que se estabelecem com os pais. Esta situação é tão evidente que todos somos filhos de alguém e muitas vezes nos apresentamos como filhos. Assim reconhecemos automaticamente que não somos a causa de nós mesmos, mas portadores da vida, sendo para sempre filhos de alguém.

A missão da educação dos nossos filhos significa levá-los ao desenvolvimento de si mesmos. É para isso que os pais muitas vezes se esforçam, corrigem e encorajam os filhos. «Ouve meu filho, as instruções de teu pai» (Prov 1, 8) e ainda «interroga o teu pai e ele te ensinará» (Dt 32, 7) são duas pequenas frases bíblicas que nos fazem reconhecer o lugar que os nossos pais têm na educação dos filhos. Nesta tarefa é essencial apontar aos filhos que Deus continua próximo e presente no meio do seu povo e que jamais nos esquece. Quem assim se descobre amado por Deus, encontra a felicidade e o sentido da sua vida, e que tem a sua pátria nos céus. Estas duas pequenas citações bíblicas dão conta desta consciência, na medida em que despertam a responsabilidade dos pais transmitirem a fé que receberam aos filhos. No mundo bíblico isto era feito sobretudo pela narração daquilo que Deus havia feito pelo seu povo ao longo dos séculos, recorrendo-se muitas vezes a fórmulas rítmicas e musicais, que ainda subsistem entre nós.

Ser filho é também a condição de Jesus Cristo, que se apresenta como o Filho de Deus, que vem revelar que Deus é Pai. De facto, diz um autor antigo que “Não nos foi mostrado que o Pai é Deus, mas Deus é Pai”. Nesta subtil distinção está o centro da nossa vida cristã: somos filhos de Deus e, em Jesus Cristo, podemos tratar a Deus por Pai.

Também a Igreja é marcada pela presença de pais. Os primeiros séculos da vida da Igreja ficaram gravados pelo testemunho e ensino dos apóstolos, que transmitiram a boa nova, ou seja, o Evangelho: Cristo morreu e ressuscitou para a salvação de todos. Este anúncio central da fé constitui o núcleo da missão da Igreja, que foi transmitido aos seguintes, num movimento que se chama de Tradição. A Tradição não diz respeito em primeiro ao modo antigo ou antiquado de fazer isto ou aquilo, mas o núcleo mais essencial da vida cristã: a fé.  

O ensino dos apóstolos foi recebido pelas comunidades, como se percebe pelos livros no Novo Testamento. Mas a vida da Igreja continua até aos nossos dias e perpetua-se na eternidade. Os primeiros séculos deste percurso histórico ficaram marcados por uma série de homens, que rezando, meditando, anunciando e administrando os sacramentos, elaboraram muito do que são as bases da fé como nós as acreditamos hoje. Se cada um de nós não existe sem um pai, também a Igreja não existiria como a temos hoje sem estes homens, que justamente foram apelidados de Padres da Igreja.


Este grupo está limitado geralmente entre os séculos I a V e deles fazem parte aqueles cujo testemunho de santidade, sabedoria e fidelidade ao ensino da fé foi reconhecido eclesialmente. Entre estes constam nomes como os de Santo Agostinho, Santo Ireneu, São João Crisóstomo, São Basílio, São Clemente de Alexandria, entre muitos outros. A abundância, a diversidade e a riqueza de fé e cultura dos seus escritos é muito ampla, sendo muitas vezes estudados por aqueles que não são cristãos. Descobri-los é um empenho grande e ajuda-nos a perceber a radicalidade da nossa fé cristã.

in Ecos da Ria, Março 2014. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

À alma na quaresma

Dá tempo neste tempo
Para te demorares na Presença
e mergulhares na radical fonte
donde brota a água pura.

A força do seu caudal
fará soltar as tuas areias
e amaciar as rugosidades do espírito
para não ferirem os pés do Visitante

Mas sabe que nem isso O detém
no desejo de te seduzir.
Vai com Ele sem demora
E deixa-te cortejar.

E em ti se fundaram os sentimentos
que anseias ver crescer
Em novo aposento entrarás
abraçada pelo Irmão dos homens.

João Ferreira 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Tribulação e prosperidade



São Gregório Magno, sobre o livro de Job (Sec. VI)

(...) Mas o que mais atentamente devemos considerar nas palavras de Job é o grande sentido de discernimento com que reage às imprecações da sua esposa, respondendo: «Se aceitámos os bens da mãos de Deus, porque não havemos de aceitar também os males?» É certamente um grande conforto no meio da tribulação recordarmos os benefícios recebidos do nosso Criador, quando caem sobre nós as adversidades; e não nos deixaremos desanimar pela dor, se imediatamente trazemos à memória a lembrança reconfortante dos dons divinos. Por isso, diz a Escritura «No dia da felicidade não te esqueças da desgraça, e no dia da desgraça não te esqueças da felicidade».

Com efeito, àquele que no tempo da prosperidade perde o temor das calamidades, o bem-estar leva-o à arrogância. Por seu lado, àquele que no tempo da adversidade não procura consolar-se com a recordação dos dons divinos, o seu estado de espírito pode abatê-lo até ao mais profundo desespero.

É necessário, portanto, associar os dois sentimentos, para que se completem mutuamente: a recordação do bem-estar mitiga o sofrimento na calamidade, e a previsão do temor da calamidade modera a alegria do bem-estar.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

São Efrém e o crescimento espiritual



Do Comentário de Santo Efrém, diácono, sobre o Diatéssaron
"A palavra de Deus é fonte inesgotável de vida"

Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza de uma só das vossas palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A palavra do Senhor apresenta aspectos muito diversos, segundo as diversas perspectivas dos que a estudam. O Senhor pintou a sua palavra com muitas cores, a fim de que cada um dos que a escutam possa descobrir nela o que mais lhe agrada. Escondeu na sua palavra muitos tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita.

A palavra de Deus é a árvore da vida, que de todos os lados oferece um fruto bendito, como a rocha que se abriu no deserto, jorrando de todos os lados uma bebida espiritual. Comeram, diz o Apóstolo, uma comida espiritual e beberam uma bebida espiritual.

Aquele que chegou a alcançar uma parte deste tesouro, não pense que nessa palavra está só o que encontrou, mas saiba que apenas viu alguma coisa de entre o muito que lá está. [...] O que não podes receber imediatamente por causa da tua fraqueza, poderás recebê-lo noutra altura, se perseverares. E não tentes avaramente tomar dum só fôlego o que não podes abarcar duma vez, nem desistas, por preguiça, do que podes ir conseguindo pouco a pouco.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Ponte de Paz


Ponte de paz

Vem Filho do Altíssimo,
Lançar a ponte da luz
Entre o reino de Teu Pai
E a mais funda raiz humana.

Vem príncipe da paz,
Despojar-nos das armaduras
E revestir-nos com as tuas vestes,
Fazer da nossa liberdade,
A ressonância do teu amor.

Vem médico divino,
Levantar-nos com as tuas mãos,
Beijar-nos com o teu olhar,
E rasgar-nos as mordaças
Que nos fazem calar a tua palavra.

Vem coração de Deus,
Inflamar-nos do teu desejo
Insuflar em nós os teus sonhos
E recriar em nós a tua vida.

Vem!



João Ferreira

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Porto

Hipérbole à parte, o senhor é capaz de ter razão:


«O Porto?! (...) O senhor já viu no mundo terra mais linda e gente mais séria? Devo confessar ter-lhe respondido que a respeito da beleza conhecia melhor. Mas, quanto à seriedade, concordei. E acrescento agora que só quem de todo quiser as evidências e apagar o facho de gerações e gerações, é que pode deixar de combater para que esta terra continue a ser o reduto das nossas velhas virtudes, das quais está certamente mais em risco de perder-se a que D. João de Castro sabia que se chamava honradez. (...) O indivíduo que põe num cabelo o valor de todo o corpo, é um ser completo. Da cabeça aos pés, passando pela alma, a sua unicidade não tem fendas, e joga como um bloco maciço. É uma força invencível. Ora se acontece que ele, em vez de se consubstanciar num simples cabelo da cara, polariza o que é na própria terra onde mora, então o perfeito torna-se exemplar, e surgem fenómenos como os do cidadão do Porto, o homem português mais livre, mais progressivo, mais responsável e mais capaz que a nossa pátria deu.»

Miguel Torga, Portugal, pp. 57-58.